As tensões geopolíticas entre Israel e Irã no Golfo Pérsico estão redesenhando o mapa do comércio global de commodities agrícolas. Para o Brasil, maior exportador mundial de soja e carne bovina, este cenário de instabilidade pode representar uma janela estratégica de valorização para grãos e proteínas animais no mercado internacional. Entenda como produtores e empresas brasileiras podem se posicionar diante desta nova realidade comercial.
Contexto atual do conflito e seus impactos iniciais
Estreito de Ormuz: ponto estratégico por onde passa 20% do comércio global de petróleo
O conflito entre Israel e Irã, que se intensificou nos últimos meses, já provoca ondas de impacto nos mercados globais. O petróleo, termômetro imediato de tensões na região, registrou alta de 7,77% logo após o início dos confrontos, com o barril Brent saltando de US$ 69,36 para US$ 74,75 em apenas um dia.
O Estreito de Ormuz, pequena faixa de água que liga o Golfo Pérsico ao mar aberto, tornou-se o epicentro das preocupações logísticas globais. Por este canal passam diariamente cerca de 20 milhões de barris de petróleo, além de ser rota essencial para o transporte de fertilizantes e alimentos.
Para o agronegócio brasileiro, os efeitos são duplos: por um lado, a alta do petróleo pressiona custos de produção e logística; por outro, abre oportunidades comerciais significativas diante da possível restrição de outros fornecedores globais.
Impacto nos grãos brasileiros: soja e milho em destaque

O Irã é um dos principais compradores de milho brasileiro, tendo importado 4,3 milhões de toneladas em 2024, o equivalente a 10% de todo o cereal exportado pelo Brasil. Como terceiro maior comprador, atrás apenas de Egito e Vietnã, o mercado iraniano representa US$ 918,4 milhões em receitas para produtores brasileiros.
Diante do conflito, dois cenários se desenham para o setor de grãos:
Cenário de restrição logística
Se o Irã decidir bloquear o Estreito de Ormuz, as exportações para toda a região do Oriente Médio enfrentarão dificuldades. Traders com contratos firmados para destinos na região podem precisar redirecionar cargas, potencialmente com custos adicionais.
Cenário de substituição de fornecedores
Países importadores podem buscar fornecedores alternativos aos tradicionais da região, abrindo espaço para o Brasil aumentar sua participação em mercados como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Norte da África.

Valorização histórica de commodities brasileiras durante crises anteriores no Golfo Pérsico
Historicamente, durante crises no Oriente Médio, as cotações de soja e milho registraram valorizações médias de 8% a 12% nos seis meses subsequentes ao início dos conflitos, conforme dados da consultoria Datagro.
Carnes brasileiras: demanda aquecida em mercados alternativos

O Oriente Médio e o Norte da África são mercados estratégicos para as proteínas animais brasileiras. Segundo dados da Associação Brasileira de Proteína Animal, 30,59% da carne de frango exportada pelo Brasil em 2024 teve como destino países do Oriente Médio, enquanto a África representou 18,70% do mercado.
A carne bovina brasileira, especialmente com certificação halal (abate conforme preceitos islâmicos), também encontra forte demanda na região. Com possíveis interrupções nas rotas marítimas tradicionais, países importadores podem aumentar seus estoques de segurança, elevando a demanda no curto prazo.
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Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, avalia que “o Brasil tem capacidade de responder rapidamente a aumentos de demanda, especialmente em carnes, onde temos ociosidade em alguns frigoríficos. O desafio será garantir a logística de escoamento diante do provável aumento nos custos de frete marítimo”.
Desafios logísticos e aumento de custos

Um dos principais impactos do conflito é o encarecimento do frete marítimo global. A necessidade de desvios de rota, como a utilização do caminho pelo Cabo da Boa Esperança (África), pode aumentar em até 15 dias o tempo de viagem e elevar os custos de transporte em 25% a 30%.
O professor João Alfredo Nyegray, especialista em Negócios Internacionais e Geopolítica da PUC-PR, explica que “se o Irã ou seus aliados dificultarem o tráfego marítimo ou atacarem navios mercantes, haverá restrições logísticas severas. Por isso, o frete marítimo já está subindo rapidamente”.
Além do frete, o aumento no preço do petróleo afeta diretamente o custo do diesel no Brasil, encarecendo o transporte interno de grãos e alimentos. A dependência do modal rodoviário agrava o problema, impactando o escoamento da produção agrícola de estados como Mato Grosso, Goiás e Paraná até os portos de Santos e Paranaguá.
Impacto nos fertilizantes e insumos agrícolas

O Brasil importa cerca de 80% dos fertilizantes utilizados nas produções agropecuárias, e boa parte desse volume vem de países direta ou indiretamente afetados pela tensão no Golfo Pérsico. O Irã é um importante fornecedor de ureia, principal fertilizante à base de nitrogênio utilizado na agricultura brasileira.
Em 2024, 19% de toda a ureia importada pelo Brasil teve origem iraniana, o equivalente a 1,6 milhão de toneladas das 8,3 milhões compradas no exterior. Com o conflito, o preço médio da ureia granulada importada pelo Brasil já subiu de US$ 398 para US$ 435 por tonelada, uma alta acumulada de 9,3% desde o início das tensões.
“Esse aspecto é particularmente sensível porque estamos em um período em que nem todos os insumos da safra 2025/26 foram adquiridos. Dependendo da situação, é bastante razoável que o pessoal antecipe as compras dos fertilizantes que vão ser utilizados na safrinha de 2026.”
O Brasil também importa fertilizantes de Israel, principalmente cloreto de potássio, embora neste caso o impacto não deva ser tão significativo. Em 2024, Israel foi o quarto principal fornecedor de fertilizantes potássicos para o Brasil, com cerca de 1 milhão de toneladas embarcadas.
Oportunidades para o agronegócio brasileiro

Apesar dos desafios, o cenário atual apresenta oportunidades significativas para o agronegócio brasileiro:
Diversificação de mercados
A instabilidade na região pode abrir portas para o Brasil aumentar sua presença em mercados alternativos como Sudeste Asiático, Europa e África Subsaariana.
Valorização de commodities
A alta do petróleo tende a valorizar biocombustíveis e seus insumos, como óleo de soja, açúcar (para etanol) e milho, beneficiando produtores brasileiros.
Contratos de longo prazo
Países importadores podem buscar garantias de fornecimento, abrindo espaço para contratos de longo prazo com condições mais favoráveis.
Carlos Cogo, sócio-diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio, recomenda que os produtores fiquem atentos às janelas de oportunidade para travar preços atrativos de commodities. “Olhando sob uma perspectiva mais estratégica, esse cenário pode ser visto como uma oportunidade. É o momento para travar preços, seja de algodão, soja ou outras commodities que estão reagindo a essa volatilidade”, destaca.
Perspectivas de especialistas e recomendações estratégicas

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) está monitorando de perto a situação e recomenda que exportadores diversifiquem seus mercados e rotas logísticas. Em nota, o ministério afirmou que “o Brasil está preparado para atender à demanda global por alimentos, mesmo em cenários de instabilidade geopolítica”.
Especialistas do setor apontam algumas recomendações estratégicas para produtores e exportadores brasileiros:

Marcos Jank, professor de Agronegócio Global do Insper, ressalta que “historicamente, períodos de instabilidade geopolítica favorecem países com produção agrícola robusta e diversificada como o Brasil. A chave é a agilidade para redirecionar fluxos comerciais e aproveitar oportunidades de curto prazo, enquanto se constrói relações comerciais mais sólidas no médio prazo”.
Algodão e açúcar: beneficiários indiretos da alta do petróleo

Além dos grãos e carnes, outros produtos agrícolas brasileiros podem se beneficiar indiretamente do conflito no Golfo Pérsico. O algodão, por exemplo, tende a se valorizar quando o petróleo encarece, já que compete diretamente com fibras sintéticas derivadas do petróleo.
“Com petróleo mais caro, o etanol se valoriza, o que pode levar usinas a direcionarem mais cana para o biocombustível”, explica Carlos Cogo. Os preços do açúcar, que vinham testando quedas consistentes, podem encontrar suporte na bolsa de Nova York devido a essa dinâmica.
O óleo de soja, insumo-chave para a produção de biodiesel, também pode se tornar mais competitivo em um cenário de petróleo valorizado, beneficiando produtores e processadores brasileiros.
Impacto cambial e inflacionário

A volatilidade cambial tende a se intensificar em períodos de tensão geopolítica. No início do conflito, o dólar, que havia atingido o menor patamar de fechamento do ano (R$ 5,53), voltou a subir, aproximando-se de R$ 5,60.
Esse comportamento tem impacto direto no agronegócio. “Um câmbio mais alto pesa sobre os custos dos insumos importados, como fertilizantes e defensivos. Por outro lado, melhora a rentabilidade das exportações. É um efeito de mão dupla que exige atenção constante do produtor rural”, avalia Cogo.
No aspecto inflacionário, o aumento do preço do diesel pode pressionar o custo de transporte interno de alimentos, com potencial impacto nos preços ao consumidor. No entanto, Felippe Serigati, do FGVAgro, pondera que “a transmissão dos custos do campo para o preço dependerá muito da produtividade. Passamos por uma guerra na Ucrânia que jogou o preço do fertilizante lá em cima, e mesmo assim fizemos uma supersafra em 2023”.
Conclusão: posicionamento estratégico em tempos de incerteza

O conflito no Golfo Pérsico apresenta um cenário complexo para o agronegócio brasileiro, com desafios logísticos e de custos, mas também com oportunidades significativas de valorização e diversificação de mercados para grãos e proteínas animais.
A capacidade de adaptação rápida às mudanças de cenário, o monitoramento constante das condições de mercado e a diversificação de destinos e rotas logísticas serão fatores determinantes para que produtores e exportadores brasileiros possam transformar a instabilidade geopolítica em vantagem competitiva.
Como destacou o professor João Alfredo Nyegray, “o agro é um dos motores da economia nacional e, justamente por isso, está muito exposto a choques como esse”. Mas é justamente essa exposição que também coloca o Brasil em posição privilegiada para atender à demanda global por alimentos em momentos de reorganização das cadeias globais de suprimentos.
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